sexta-feira, 29 de abril de 2011

Causas e Repercussões da Crise de 2008 - Parte II


Entendida a dinâmica dos fatos que geraram a crise econômica de 2008, partiremos à análise de suas repercussões e as tentativas para sua superação.

Como vimos, o excesso de produção mundial, consumida através da disponibilização farta de crédito, levou à montagem de uma pirâmide financeira em escala global que desmoronou quando o mercado percebeu que parte substancial dos consumidores dos países ricos não tinham mais liquidez suficiente para honrar suas dívidas. Diferentemente da crise de 1929, quando muitos governos se mantiveram inertes por anos - agravando a crise -, a de 2008 pôs imediatamente em xeque a crença liberal de que o mercado se autoregularia em busca de novo equilíbrio. Logo após ter sido deflagrada a crise (com a falência do gigantesco banco Lehman Brothers), e superado um choque inicial que paralisou governos, formou-se uma ampla coalizão de Estados para trabalhar em favor da superação da crise.

Em teoria, segundo o preceito liberal adotado por estes próprios países, o mercado deveria ser capaz de atingir sozinho um novo equilíbrio. Indústrias deveriam demitir e abaixar a escala de produção, instituições financeiras que carregavem títulos de risco não pagos deveriam pedir falência, e as famílias endividadas deveriam liquidar seu patrimônio para pagar o que deviam. Desta forma, o mercado se nivelaria em um nível mais baixo de atividade e recomeçaria um novo ciclo de crescimento. Entretanto, os governos sabiam que, no mundo real, as consequências sociais e econômicas desta reacomodação do mercado poderiam ser tão dramáticas e gigantescas que a própria existência do sistema poderia ser ameaçada. Para não correr este risco, os Estados agem por conta própria: culpam diretores e investidores financeiros como bodes expiatórios, assumem para sí as dívidas não pagas, estatizam empresas e fundos, injetam dinheiro nas instituições financeiras e liberam uma enxurrada de crédito para que as famílias continuem consumindo.

O pensamento dos governos era que, se assumissem as gigantescas dívidas das instituições financeiras e injetassem dinheiro nos bancos, o fluxo de crédito estaria garantido. Com esta garantia as famílias continuariam comprando, o que manteria a produção em alta e evitaria o desemprego, garantindo a renda para o pagamento das dívidas e contração de outras, mantendo o sistem funcionando. Em suma, os governos intervieram na tentativa de gerar um ciclo virtuoso que revertesse a crise.

Não deu certo.

A recuperação econômica se mostrou anacrônica e instável. As dívidas das instituições financeiras assumidas pelos Estados eram tão monstruosas que alguns tesouros nacionais começaram a quebrar. Países como Grécia, Islândia, Irlanda, Portugal e Espanha estão entrando, ou já entraram, em situação de insolvência até mesmo para manter seus serviços públicos. Ameaçam, assim, recontaminar os países centrais que arrastam debilmente um pequeno crescimento de suas economias e já não têm mais nenhuma margem financeira para fazer ainda mais concessões ao mercado caso a recessão os atinja novamente.

Como se não bastasse, a própria questão do consumo, cerne da crise, não está resolvida por uma simples contradição encontrada na solução dos Governos: não se pagam créditos com mais créditos. Se uma pessoa sem dinheiro suficiente para honrar uma dívida a paga contraindo outra, ela não resolveu seu problema, apenas adiou sua bancarrota. E isso vale para toda a massa de consumidores das economias importantes que continuam pegando crédito para pagar dívidas e consumir mais.

Para finalizar o cenário, podemos ainda identificar problemas secundários. Como parcela significativa das famílias já está em situação ruim e não têm acesso aos novos créditos, o patamar global de consumo já não é o mesmo de antes, gerando queda de produção e desemprego. Devido a isso, o comércio mundial cai e gera protecionismos, barreiras e guerra cambial, prejudicando ainda mais as economias. Até mesmo os Estados Unidos chegaram ao ponto de imprimir moeda sem nenhum lastro real para aquecer a economia às custas da inflação e gerar uma desvalorização cambial forte o suficiente para baratear seus produtos no exterior.

Concluindo, como a solução dada pelos Estados à crise de 2008 foi insatisfatória e artificial, pode-se afirmar, tranquilamente, que a recessão econômica mundial não foi superada. No máximo adiada.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Causas e Repercussões da Crise de 2008 - Parte I


Muito já se falou sobre a famosa crise econômica de 2008. Alardeada como a "pior crise em um século" e alvo das preocupações dos centros de poder mundiais, derrubou mercados e arrasou economias nacionais. Contraditoriamente, entretanto, após propagar seus efeitos por pouco mais de um ano, foi declarada extinta pela mídia e pelos governos, que não se cansam de divulgar indicadores sobre a recuperação de empregos, produção e reservas financeiras.

Tais dados, contudo, não são suficientes para esclarecer as legítimas dúvidas de qualquer bom observador da realidade cotidiana. As causas desta crise econômica limitam-se mesmo à ganância e má-gestão das gigantes corporações financeiras ou têm raízes mais profundas na estrutura do sistema econômico? A crise já foi realmente superada ou nossas empresas e empregos ainda correm o risco de sofrer suas repercussões? Há chance de, no futuro, novas ondas de crise se abaterem sobre as economias nacionais ou o pior já passou? A análise destas questões sobre passado, presente e futuro da crise nos ajudarão, ao menos parcialmente, a compreender o que realmente ocorre com nossa economia e sociedade hoje.

Comecemos pela primeira pergunta. Ainda que existam controvérsias, pode-se dizer que a crise econômica de 2008 caracterizou-se como uma clássica crise de superprodução revestida por uma roupagem moderna. Nos últimos 20 anos, ou mais, a produção global de bens de consumo ocorreu de forma crescente e quase ininterrupta. Estes bens deveriam ser consumidos pelas famílias para que os lucros pudessem ser realizados mas não é possível identificar , em nenhuma região do globo, um crescimento da média da massa salarial em quantidade suficiente para se acompanhar o crescimento da produção. Ou seja, nos principais países do mundo a população não ganhava salários suficientes para se consumir tudo o que era produzido em escala cada vez maior. Desta forma, o mercado teve que impulsionar uma nova forma de financiamento: o crédito.

Surge a partir daí uma ciranda financeira cada ano mais intrincada e desregulamentada para financiar tanto o consumo das famílias quanto ao seu próprio crescimento. Tentando extrair até a última gota desta fonte de lucros, e ainda baseados no financiamento do consumo de uma produção que não parava de crescer, as companhias de crédito emprestam dinheiro aos consumidores até o ponto em que as dívidas superam o total do próprio patrimônio das famílias. É neste momento em que os operadores do sistema financeiro perdem o controle da situação.

Observando que surge nos Estados Unidos, onde o consumo das famílias corresponde a grande parte do PIB, uma tendência de impossibilidade de pagamento do total de crédito concedido aos consumidores, o mercado financeiro se contrai, tentando se livrar de suas carteiras de crédito ao mesmo tempo em que se fecham para novos financiamentos. As famílias, endividadas e sem o crédito que as financiava, param de consumir. O setor produtivo, que a muitos anos não parava de crescer, vê o consumo caindo e os estoques se acumulando rapidamente, retraindo-se e cortando postos de trabalho em larga escala, o que agrava a incapacidade das famílias de pagar suas dívidas. Com o inadimplemento subindo o mercado de crédito se fecha ainda mais e reinicia o círculo vicioso. Está montado o cenário da crise. Explode nos Estados Unidos e rapidamente se espalha para o interligado mercado global.

Disso tudo se tira que não se pode atribuir a responsabilidade da crise de 2008 a alguns grandes operadores financeiros individuais ávidos por lucros. Muito menos às famílias americanas que hipotecaram duas ou três vezes suas próprias casas e não conseguiram pagar as dívidas. Todos estes agentes econômicos individuais foram engolidos, conscientemente ou não, pelo funcionamento de um sistema econômico construído exclusivamente para a realização de lucros em grande escala e a qualquer preço, inclusive o de crescer artificialmente pela via da produção em escala excessiva somada à ausência de riqueza própria dos consumidores para o consumo. Ou seja, o próprio sistema econômico foi programado para que a crise de 2008 ocorresse, em troca de gigantescos e irresponsáveis lucros realizados nos anos predecessores.

Bem, vistas as causas da crise, analisaremos no próximo post as respostas dadas para a correção deste cenário, assim como suas repercussões no presente da economia global, para que consigamos as respostas para as outras perguntas aqui levantadas.

Até a próxima!

Imagem retirada de: http://www.brasildiario.com/imgNot/im/35/seta_caindo.jpg , em 22/04.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

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Mauro Faria