Muito já se falou sobre a famosa crise econômica de 2008. Alardeada como a "pior crise em um século" e alvo das preocupações dos centros de poder mundiais, derrubou mercados e arrasou economias nacionais. Contraditoriamente, entretanto, após propagar seus efeitos por pouco mais de um ano, foi declarada extinta pela mídia e pelos governos, que não se cansam de divulgar indicadores sobre a recuperação de empregos, produção e reservas financeiras.
Tais dados, contudo, não são suficientes para esclarecer as legítimas dúvidas de qualquer bom observador da realidade cotidiana. As causas desta crise econômica limitam-se mesmo à ganância e má-gestão das gigantes corporações financeiras ou têm raízes mais profundas na estrutura do sistema econômico? A crise já foi realmente superada ou nossas empresas e empregos ainda correm o risco de sofrer suas repercussões? Há chance de, no futuro, novas ondas de crise se abaterem sobre as economias nacionais ou o pior já passou? A análise destas questões sobre passado, presente e futuro da crise nos ajudarão, ao menos parcialmente, a compreender o que realmente ocorre com nossa economia e sociedade hoje.
Comecemos pela primeira pergunta. Ainda que existam controvérsias, pode-se dizer que a crise econômica de 2008 caracterizou-se como uma clássica crise de superprodução revestida por uma roupagem moderna. Nos últimos 20 anos, ou mais, a produção global de bens de consumo ocorreu de forma crescente e quase ininterrupta. Estes bens deveriam ser consumidos pelas famílias para que os lucros pudessem ser realizados mas não é possível identificar , em nenhuma região do globo, um crescimento da média da massa salarial em quantidade suficiente para se acompanhar o crescimento da produção. Ou seja, nos principais países do mundo a população não ganhava salários suficientes para se consumir tudo o que era produzido em escala cada vez maior. Desta forma, o mercado teve que impulsionar uma nova forma de financiamento: o crédito.
Surge a partir daí uma ciranda financeira cada ano mais intrincada e desregulamentada para financiar tanto o consumo das famílias quanto ao seu próprio crescimento. Tentando extrair até a última gota desta fonte de lucros, e ainda baseados no financiamento do consumo de uma produção que não parava de crescer, as companhias de crédito emprestam dinheiro aos consumidores até o ponto em que as dívidas superam o total do próprio patrimônio das famílias. É neste momento em que os operadores do sistema financeiro perdem o controle da situação.
Observando que surge nos Estados Unidos, onde o consumo das famílias corresponde a grande parte do PIB, uma tendência de impossibilidade de pagamento do total de crédito concedido aos consumidores, o mercado financeiro se contrai, tentando se livrar de suas carteiras de crédito ao mesmo tempo em que se fecham para novos financiamentos. As famílias, endividadas e sem o crédito que as financiava, param de consumir. O setor produtivo, que a muitos anos não parava de crescer, vê o consumo caindo e os estoques se acumulando rapidamente, retraindo-se e cortando postos de trabalho em larga escala, o que agrava a incapacidade das famílias de pagar suas dívidas. Com o inadimplemento subindo o mercado de crédito se fecha ainda mais e reinicia o círculo vicioso. Está montado o cenário da crise. Explode nos Estados Unidos e rapidamente se espalha para o interligado mercado global.
Disso tudo se tira que não se pode atribuir a responsabilidade da crise de 2008 a alguns grandes operadores financeiros individuais ávidos por lucros. Muito menos às famílias americanas que hipotecaram duas ou três vezes suas próprias casas e não conseguiram pagar as dívidas. Todos estes agentes econômicos individuais foram engolidos, conscientemente ou não, pelo funcionamento de um sistema econômico construído exclusivamente para a realização de lucros em grande escala e a qualquer preço, inclusive o de crescer artificialmente pela via da produção em escala excessiva somada à ausência de riqueza própria dos consumidores para o consumo. Ou seja, o próprio sistema econômico foi programado para que a crise de 2008 ocorresse, em troca de gigantescos e irresponsáveis lucros realizados nos anos predecessores.
Bem, vistas as causas da crise, analisaremos no próximo post as respostas dadas para a correção deste cenário, assim como suas repercussões no presente da economia global, para que consigamos as respostas para as outras perguntas aqui levantadas.
Até a próxima!
Imagem retirada de: http://www.brasildiario.com/imgNot/im/35/seta_caindo.jpg , em 22/04.
Tais dados, contudo, não são suficientes para esclarecer as legítimas dúvidas de qualquer bom observador da realidade cotidiana. As causas desta crise econômica limitam-se mesmo à ganância e má-gestão das gigantes corporações financeiras ou têm raízes mais profundas na estrutura do sistema econômico? A crise já foi realmente superada ou nossas empresas e empregos ainda correm o risco de sofrer suas repercussões? Há chance de, no futuro, novas ondas de crise se abaterem sobre as economias nacionais ou o pior já passou? A análise destas questões sobre passado, presente e futuro da crise nos ajudarão, ao menos parcialmente, a compreender o que realmente ocorre com nossa economia e sociedade hoje.
Comecemos pela primeira pergunta. Ainda que existam controvérsias, pode-se dizer que a crise econômica de 2008 caracterizou-se como uma clássica crise de superprodução revestida por uma roupagem moderna. Nos últimos 20 anos, ou mais, a produção global de bens de consumo ocorreu de forma crescente e quase ininterrupta. Estes bens deveriam ser consumidos pelas famílias para que os lucros pudessem ser realizados mas não é possível identificar , em nenhuma região do globo, um crescimento da média da massa salarial em quantidade suficiente para se acompanhar o crescimento da produção. Ou seja, nos principais países do mundo a população não ganhava salários suficientes para se consumir tudo o que era produzido em escala cada vez maior. Desta forma, o mercado teve que impulsionar uma nova forma de financiamento: o crédito.
Surge a partir daí uma ciranda financeira cada ano mais intrincada e desregulamentada para financiar tanto o consumo das famílias quanto ao seu próprio crescimento. Tentando extrair até a última gota desta fonte de lucros, e ainda baseados no financiamento do consumo de uma produção que não parava de crescer, as companhias de crédito emprestam dinheiro aos consumidores até o ponto em que as dívidas superam o total do próprio patrimônio das famílias. É neste momento em que os operadores do sistema financeiro perdem o controle da situação.
Observando que surge nos Estados Unidos, onde o consumo das famílias corresponde a grande parte do PIB, uma tendência de impossibilidade de pagamento do total de crédito concedido aos consumidores, o mercado financeiro se contrai, tentando se livrar de suas carteiras de crédito ao mesmo tempo em que se fecham para novos financiamentos. As famílias, endividadas e sem o crédito que as financiava, param de consumir. O setor produtivo, que a muitos anos não parava de crescer, vê o consumo caindo e os estoques se acumulando rapidamente, retraindo-se e cortando postos de trabalho em larga escala, o que agrava a incapacidade das famílias de pagar suas dívidas. Com o inadimplemento subindo o mercado de crédito se fecha ainda mais e reinicia o círculo vicioso. Está montado o cenário da crise. Explode nos Estados Unidos e rapidamente se espalha para o interligado mercado global.
Disso tudo se tira que não se pode atribuir a responsabilidade da crise de 2008 a alguns grandes operadores financeiros individuais ávidos por lucros. Muito menos às famílias americanas que hipotecaram duas ou três vezes suas próprias casas e não conseguiram pagar as dívidas. Todos estes agentes econômicos individuais foram engolidos, conscientemente ou não, pelo funcionamento de um sistema econômico construído exclusivamente para a realização de lucros em grande escala e a qualquer preço, inclusive o de crescer artificialmente pela via da produção em escala excessiva somada à ausência de riqueza própria dos consumidores para o consumo. Ou seja, o próprio sistema econômico foi programado para que a crise de 2008 ocorresse, em troca de gigantescos e irresponsáveis lucros realizados nos anos predecessores.
Bem, vistas as causas da crise, analisaremos no próximo post as respostas dadas para a correção deste cenário, assim como suas repercussões no presente da economia global, para que consigamos as respostas para as outras perguntas aqui levantadas.
Até a próxima!
Imagem retirada de: http://www.brasildiario.com/imgNot/im/35/seta_caindo.jpg , em 22/04.
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