quinta-feira, 5 de maio de 2011

Os BRICS


Um adendo se faz necessário à análise sobre a crise econômica de 2008: os BRICS. Brasil, Índia, China e Rússia (mais recentemente África do Sul) são alardeados, desde a divulgação da tese do influente economista Jim O'Neill, em 2001, como os principais países emergentes do mundo. De lá para cá, foram postos sob a atenção da imprensa mundial, suas economias atravessaram o duro teste da crise de 2008 e passaram a ser considerados, por muitos, como a salvação da economia global frente à estagnação dos países ricos. Serão estes países capazes, entretanto, de alterar o fluxo global de riqueza e produção, e cumprirem o papel de potências que lhes foi atribuído? Uma observação do comportamento recente de suas economias poderá ajudar a clarificar uma resposta.

Sob uma perspectiva puramente capitalista, os BRICS são um sucesso. Surgiu uma tendência de direcionamento do fluxo mundial de capitais para estes países, há espaço para investimento na construção de suas infraestruturas e produção para consumo de suas populações crescentes, os lucros estão se realizando e as taxas de desemprego apresentaram quedas ao longo da década. Este comportamento se tornou muito claro entre os anos 2000 e 2007, período de quase contínuo e forte crescimento da economia global, alimentado por farto crédito, e que ajudou os BRICS a consolidarem suas economias e melhorarem o padrão de vida de seus cidadãos. Como ainda havia muito espaço para investimento e crescimento nestes países, suas economias cresceram, na década, a passos muito mais largos que os dos países ricos. Isto ajudou a criar uma impressão de que, a longo prazo, os BRICS substituiriam Estados Unidos, União Européia e Japão como as principais economias do mundo.

A crise de 2008, contudo, foi um divisor de águas também para os BRICS. Em um primeiro momento não pareceram ter sido tão golpeados quanto os países centrais. A inércia do crescimento acelerado transmitido da véspera para a crise, os sistemas bancários atrasados não muito conectados às instituições estrangeiras que carregavam dívidas de risco e, principalmente, ao consumo de suas famílias recém-lançadas à classe média pelo período anterior de bonança foram os fatores que contribuiram para isso. No ápice da crise, porém, ao invés de atenuarem seus efeitos, estes países simplesmente foram dragados por ela. Países dependentes da exportação de matérias-primas - Brasil, Rússia e África do Sul - viram uma queda abrupta de seu comércio exterior, dos preços de seus produtos e até mesmo de seus PIB´s (queda de 0,20%, 7,9% e 1,8% em 2009, respectivamente).¹ Já os países dependentes da exportação de produtos industrializados - Índia e China - viram a estagnação do crescimento de seus PIB´s (embora ainda em patamares elevados), formação de estoques de produção e o levantamento de barreiras protecionistas contra seus produtos. A China ainda enfrentou uma preocupação adicional, já que tem suas finanças fortemente atreladas ao tesouro americano (que absorveu para si o grande volume de dívidas privadas de seu sistema bancário). Ao mesmo tempo, todos os países sofreram com a retirada maciça de investimentos estrangeiros de suas economias, os quais foram redirecionados para cobrir rombos financeiros em suas origens nos países ricos.

Logo após o arrefecimento da crise, suspensa artificialmente pela injeção de mais crédito nos mercados pelos governos, os BRICS retomaram sua marcha baseados sobre os mesmos pilares de antes. Contudo, não mais com o mesmo vigor e nem mais com a mesma sensação de poderio. Isso porque, se não tiveram força própria para atenuar os rumos da crise, perceberam, também, que têm suas economias atreladas aos investimentos e consumo oriundos dos países ricos.

Se é verdade que as economias dos BRICS têm mais espaço para crescimento e multiplicação do capital nos bons tempos, também é que afundam com velocidade sem as importações e investimentos realizados pelos países avançados. Este atrelamento dependente das economias levam, tranquilamente, à conclusão de que os BRICS não têm uma economia descolada do mundo e sustentada por fundamentos próprios. Também se pode afirmar, seguramente, que não há margem, ao menos nas próximas décadas, para que os BRICS substituam Estados Unidos, União Européia e Japão como as principais potências econômicas globais.


¹ Fonte: www.indexmundi.com

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